Folia e saúde: quando a diversão vira excesso
Festas, blocos e grandes eventos costumam ser associados à alegria e à celebração, mas também podem esconder riscos importantes à saúde quando o consumo de álcool ultrapassa limites seguros. Intoxicação alcoólica, desidratação, quedas, acidentes e comportamentos de risco estão entre os problemas mais frequentes observados em períodos de grande aglomeração, calor e ingestão excessiva de bebida alcoólica.
A nutricionista clínica e esportiva Marcella Tamiozzo explica que, de acordo com parâmetros amplamente utilizados em saúde pública, o chamado binge drinking — caracterizado pela ingestão de cinco ou mais doses de álcool para homens, ou quatro ou mais para mulheres, em cerca de duas horas — já configura um episódio de consumo abusivo.
Nesses casos, os sinais de alerta incluem perda de coordenação motora, fala arrastada, confusão mental, sonolência intensa, vômitos repetidos e lapsos de memória conhecidos como “apagões”. Em situações mais graves, podem surgir respiração lenta ou irregular, convulsões e desmaios, indicando emergência médica.
Os riscos imediatos do excesso vão além da intoxicação alcoólica. Quedas, traumas, afogamentos, brigas e acidentes de trânsito estão entre as ocorrências mais comuns. “Quando a pessoa está muito confusa, não acorda adequadamente ou apresenta dificuldade para respirar, é fundamental buscar atendimento de emergência”, alerta a professora do curso de Nutrição da Estácio em Volta Redonda e Resende.
Hidratação, alimentação e escolhas conscientes fazem a diferença
Marcella destaca que o álcool também afeta diretamente o julgamento e o autocontrole. “Ao reduzir a capacidade de avaliar consequências, favorece decisões impulsivas, como dirigir após beber, aceitar caronas inseguras ou manter relações sexuais sem proteção. Um fator crítico é que a sensação subjetiva de estar ‘bem’ não acompanha o real nível de comprometimento do organismo”, esclarece.
Durante a folia, o álcool ainda contribui para a desidratação. Seu efeito diurético, somado ao calor, à sudorese intensa e à ingestão insuficiente de água, aumenta o risco de exaustão térmica. Sede intensa, dor de cabeça, tontura, urina escura e fraqueza são sinais comuns de alerta, podendo evoluir para confusão mental e desmaios em quadros mais graves.
Especialistas recomendam intercalar bebidas alcoólicas com água, o que ajuda a reduzir a desidratação e a velocidade do consumo. Já a combinação de álcool com energéticos merece atenção: a cafeína pode mascarar a sensação de embriaguez e estar associada a maior consumo total e a comportamentos de risco.
Outro fator crítico é passar horas bebendo sem se alimentar adequadamente. A ausência de refeições favorece picos mais altos de álcool no sangue, aumenta o risco de hipoglicemia, náuseas e vômitos. A orientação da nutricionista é fazer uma refeição antes da festa, com carboidratos, proteínas e um pouco de gordura, e manter lanches leves durante o evento, como frutas, sanduíches, iogurtes e água de coco.
O consumo de álcool aliado a alimentos de rua com conservação inadequada também eleva a chance de intoxicação alimentar e diarreia, agravando ainda mais a desidratação. Além disso, segundo Marcella Tamiozzo, misturar bebida alcoólica com drogas ilícitas ou certos medicamentos pode gerar reações imprevisíveis, como arritmias, picos de pressão, sedação profunda, confusão mental e depressão respiratória. “Diversão e cuidado precisam caminhar juntos. Reconhecer sinais de alerta, manter hidratação e alimentação adequadas e evitar excessos são atitudes essenciais para que a folia termine bem — e com saúde”, orienta a especialista.
Não existe dose totalmente segura
A professora da Estácio observa que o álcool é reconhecido como carcinogênico e está associado a cânceres de boca, garganta, esôfago, fígado, mama e intestino, além de doenças hepáticas, cardiovasculares, neurológicas e risco de dependência ao longo do tempo.
“Do ponto de vista científico, não existe uma dose totalmente isenta de risco. A Organização Mundial da Saúde destaca que, em relação ao câncer, não há um limiar comprovadamente seguro para o consumo de álcool — ou seja, o risco não é zero mesmo em consumo baixo”, ressalta.


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